Burning Man – Motor de Transformação

Tratando-se de uma contribuição fundamentalmente baseada na fotografia, não me vou alongar muito sobre o festival nem sobre a minha participação nele. Tanto mais que tal seria inútil tendo em atenção a dimensão e particularidade do evento.
Podia remeter para as fotos, mas nem elas, apesar de cada uma valer mil palavras, conseguem dar uma ideia da realidade do evento. De facto nem mesmo eu que conhecia o evento há cerca de já quase dez anos e de ter lido e visto inúmeras fotos e vídeos sobre o mesmo, me encontrava preparado para com o que me deparei quando cheguei ao festival.
É realmente um evento único a nível Mundial. A sua dimensão em termos físicos e participativos é incomparável e indiscritível. Trata-se de uma experiência única, difícil de descrever de forma abrangente tal a diversidade de experiências a que somos submetidos durante o tempo em que participamos no evento.
Poderei talvez descrever a sensação geral com que fiquei do evento, após me ter debatido arduamente para encontrar uma explicação e definição para o que presenciava. Não que seja uma explicação válida pois trata-se apenas da MINHA sensação, baseada nas minhas experiências e vivências anteriores, e como tal será sempre uma descrição ferida pela minha perspectiva individual, a qual, como todas as perspectivas individuais, será sempre parcial e incompleta, tanto mais que a minha participação se focou mais na perspectiva do fotógrafo do que sob a perspectiva do participante.
Pouco após a entrada no festival e já no meio da praça central, bem afastado da grande massa de tendas, carros e participantes, enquanto comtemplava de longe uma longa linha de luzes coloridas, veio-me à ideia os tempos em que era mais jovem e costumava ir à Feira Popular e percorria as usas ruas no meio das luzes dos divertimentos que povoam a feira. Foi esta aminha sensação principal que durou até quase ao fim do festival.
Já perto do fim do festival, apercebi-me então que, na realidade o que eu estava a vivenciar era o ambiente de um circo. Um circo gigante, sem tenda principal , onde os actores eram os próprios participantes do festival. De facto, os acampamentos, as roulottes, as tendas , a forma circular do festival, as atracções, as pessoas e as suas roupas e até o simples facto de as bicicletas (principal meio de deslocação) serem em si um veículo acrobático (se bem que relativamente simples), emprestam ao festival um ambiente circense, difícil de ignorar.
Com estas comparações com a Feira popular e com o circo, não pretendo diminuir o valor do festival e da experiência em si, muito pelo contrário. São vivências com muito valor e são elas, na minha opinião, o real motor da transformação que muitos participantes dizem sentir no decorrer do evento.
Quer nas feiras populares quer no circo, as pessoas vivenciam e assistem ao maravilhoso, ao fantástico, aos estranho, ao diferente, ao alternativo, ao alegre e ao divertido. Nas feiras de diversões e no circo, as pessoas divertem-se, aligeiram a sua carga de seriedade e tornam-se crianças na sua maneira de encarar a vida e o mundo. São sensações e vivências que na maior parte do tempo se encontram ausentes do dia a dia comum da maior parte de nós, mas que são necessárias para termos uma vida saudável do ponto de vista psicológico. O mesmo se passa com as artes, com a música, com a dança, etc. São actividades que fazem parte da nossa condição humana. Inegáveis e inseparáveis da equação do ser feliz.
Imaginemos agora que, para além de sermos meros espectadores numa feira ou num circo, podemos de repente passar a ser também actores. Participantes activos na fantasia. É isso que na minha opinião o festival proporciona. Cada um pode de maneira simples ou mais complexa, viver os seus sonhos, expor a sua arte, etc. Vestir-se de cowboy ou como um figurante do Mad Max, andar sem roupa, dançar a noite toda, fazer o pino no meio da rua, ou mesmo simplesmente andar de bicicleta, sem que ninguém leve a mal e nos coloque de imediato o rótulo de “maluco” ou desadequado.
O participante ao se desinibir e vivenciar os seus sonhos, mas também tomando contacto com outras realidades e alternativas que permeiam o festival através dos workshops, peças de arte, slogans, etc, abre-se ao Mundo e a novas ideias as quais, com esperança, irão proporcionar uma transformação a qual, mesmo que seja ligeira, irá se repercutir posteriormente no seu dia a dia normal, contribuindo assim para uma também transformação a médio e longo prazo do meio onde se insere e da sociedade.
O Festival Burning Man é assim, na sua essência, um gigantesco motor de transformação a curto prazo do participante e a médio e longo prazo da sociedade em geral.
Antigamente, os profetas dirigiam-se para o deserto afim de se encontrarem a si próprios e com Deus. No Festival, os participantes que a ele se dirigem, no meio do deserto, são, mesmo que não o saibam, arautos e profetas de uma mudança, para melhor do individuo e da sociedade.

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